Mulheres, negras, latinas – e pesquisadoras

Filha de dona de casa e de pedreiro, Maria Beatriz Nascimento – mulher negra de Sergipe – migrou ainda jovem, aos 7 anos, para o Rio de Janeiro. A viagem foi de barco, partindo de Salvador; o destino: Cordovil, Zona da Leopoldina, onde chegou em 1949. Um par de anos à frente, a jovem iniciaria o curso de História na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e, em 1981, concluiria a pós-graduação na área. Tornou-se autora de obras importantes, debatendo conceitos como os de quilombo, raça, racismo e sexismo.

Contudo, a carreira de destaque no universo acadêmico seria interrompida por cinco tiros, executados por Antônio Jorge Amorim Viana, então namorado de uma amiga de Beatriz. A amiga havia se queixado de violência doméstica e a historiadora a aconselhou a abandonar a relação, conselho que foi como sentença de morte: Beatriz acabou vítima de um dos crimes que mais crescem no Brasil contemporâneo, o feminicídio (à época, o crime não era tipificado).

Em 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei 14.712/2023, incluindo o nome de Maria Beatriz Nascimento no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Agora, em 2026, ela nomeia uma chamada pública, promovida pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR), que busca selecionar mulheres negras, quilombolas, indígenas e ciganas para a realização de parte de suas pesquisas de doutorado ou de projetos de pós-doutorado no exterior.

Por sua trajetória, conquistas e legado, Beatriz Nascimento tornou-se um dos principais símbolos da luta celebrada em 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra

Chamada Pública Atlânticas – Beatriz Nascimento 2026 

A respeito da “Chamada Pública Atlânticas – Beatriz Nascimento 2026”, a EPPGG Luana de Oliveira, que atua no MIR, destaca a importância da construção de políticas públicas que incentivem a pesquisa de mulheres negras e a pluralidade epistemológica que elas representam. “A Chamada Beatriz Nascimento representa mais do que uma oportunidade de pesquisa no exterior: ela reafirma o compromisso do Estado brasileiro com a promoção da igualdade racial e com a ampliação do acesso de mulheres negras, quilombolas, indígenas e ciganas aos espaços de produção de conhecimento. Ao apoiar essas trajetórias acadêmicas, a iniciativa contribui para enfrentar desigualdades históricas e fortalecer a diversidade de perspectivas que enriquecem a ciência, a pesquisa e o debate público.”

Luana de Oliveira vê a escolha de Beatriz Nascimento como referência para a chamada como especialmente significativa. “Seu percurso intelectual e seu legado simbolizam a luta por reconhecimento, pertencimento e valorização das contribuições das mulheres negras para a construção do conhecimento e da própria sociedade brasileira. Investir nessas pesquisadoras é investir em uma ciência mais plural, em novas possibilidades de transformação social e em um país mais justo, democrático e comprometido com a igualdade de oportunidades.”

A EPPGG Ana Julieta Teodoro Cleaver também reforça o papel central das autoras e referências negras para se pensar o Brasil e o Estado brasileiro. Ela defendeu recentemente sua tese de doutorado, intitulada “Trabalhadoras Domésticas e Políticas Públicas: uma análise sociológica das desigualdades estruturais no Brasil”

“As intelectuais negras que, como Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, Neuza Santos Souza, Cida Bento, Jurema Werneck, Sueli Carneiro, entre muitas outras, são intérpretes do Brasil e apresentam análises eloquentes sobre questões sociais, históricas e estruturais persistentes no país. A contribuição dessas e de outras autoras é fundamental para compreendermos, de forma aprofundada, as dinâmicas persistentes das desigualdades, em especial considerando o racismo e o sexismo presentes na sociedade brasileira”, destaca Cleaver.

Ela reafirma a importância da produção intelectual dessas pesquisadoras: “O legado delas revela a urgência de pesquisas engajadas com a geração de valor público e a mudança social, com vistas à construção de um Estado efetivamente comprometido com o seu papel de promotor de justiça social.”

A Chamada Beatriz Nascimento recebe inscrições até 30 de setembro. Em sua segunda edição, a iniciativa se coloca enquanto uma política contínua de incentivo à pesquisa desenvolvida por mulheres. As bolsas apoiarão atividades de formação, pesquisa e cooperação científica internacional, com implementação prevista entre março de 2027 e dezembro de 2028. Veja os detalhes.


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