Negacionismo, democracia e o Programa Nacional de Imunizações do Brasil
Por Claudio Maierovitch*
As vacinas, ao lado do saneamento básico, são provavelmente a tecnologia mais efetiva para melhorar a saúde da população. Mas recentes turbulências (talvez tempestades ou furacões) são capazes de comprometer o sucesso de avanços científicos muito importantes. Vamos tomar aqui um exemplo, que está longe de ser específico. O sarampo é uma das doenças que permitem uma melhor compreensão sobre a importância e os desafios que enfrenta a saúde pública.
Os Estados Unidos vivem atualmente sua maior epidemia em 35 anos, tendo registrado 2.777 casos de janeiro a agosto de 2026, sendo dois fatais – além de outras quatro mortes na Pensilvânia que o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) não reconheceu ainda. Diversos outros países das Américas passam por situação semelhante, o que é espantoso, quando sabemos que a doença havia sido eliminada do continente anos atrás.
Esse retorno gera questionamentos sobre suas causas e joga luz sobre uma ameaça à saúde: o negacionismo científico, com sua face mais visível nos Estados Unidos, mas com desdobramentos no mundo todo.
A vacinação, um tema que nunca fora identificado como ponto de divergência entre capitalistas e socialistas, liberais ou estatizantes ou mesmo democratas e autocratas, passou a frequentar o debate político como se tivesse conexão específica com alguma das ideologias que orientam tais agrupamentos. As eleições que se aproximam têm íntima relação com isso. Vacinas, concepção de serviço público, democracia e respeito à vida são temas mais conectados do que nunca.
A Organização Panamericana da Saúde (OPAS) estima que mais de 6 milhões de mortes por sarampo foram evitadas nas Américas entre 2000 e 2023 pela vacinação. Além da possibilidade de causar mortes, alguns dos que sobrevivem podem ter sequelas graves, como alterações neurológicas, sensoriais, respiratórias e imunológicas por longo tempo.
O Brasil resiste bravamente, pressionado pela entrada de casos de sarampo que chegam continuamente de avião ou pelas fronteiras terrestres. Embora nosso sistema de saúde já tenha eliminado a doença duas vezes, o risco persiste. Trata-se, pois, de uma das doenças que mais facilmente se transmitem. Entre pessoas não vacinadas, um caso de sarampo pode, em média, levar ao aparecimento de até 18 novos casos. Já quem recebeu duas doses da vacina, conforme recomendado pela ciência, tem uma probabilidade muito pequena, inferior a 3%, de ser acometido se tiver contato direto com alguém doente.
A simples leitura desses dados dispara imediatamente pelo menos três perguntas:
Se há uma vacina tão eficaz (extremamente segura e barata também), por que o sarampo não foi erradicado?
Tendo sido eliminada do continente, como a doença voltou?
Como o Brasil tem conseguido se proteger enquanto há epidemias em outros grandes países americanos?
Tratemos de cada uma delas.
Para que a doença seja erradicada do mundo, é preciso que a vacina chegue à grande maioria das pessoas (idealmente, 95%) e que medidas rápidas sejam tomadas sempre que um caso é identificado, com isolamento e imunização de quem teve contato com a pessoa infectada. Isso só acontece onde há compreensão sobre a importância da vacinação e serviços de saúde organizados e acessíveis.
Infelizmente, essa não é a realidade em que vive boa parte das pessoas. Na África e na Ásia, onde está cerca de 80% da população mundial, os sistemas de saúde, na maior parte dos países, são insuficientes e não conseguem atingir as metas necessárias para reduzir a doença, cujo comportamento é endêmico, ou seja, ocorre continuamente. A dificuldade nesse caso está relacionada principalmente à pobreza da população e à fragilidade dos sistemas de saúde. Programas desenvolvidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), pela Aliança Global de Vacinas (GAVI), pelos Médicos Sem Fronteiras (MSF), entre outras diversas organizações multilaterais e da sociedade civil, há tempos representam apoio importante para as ações de saúde onde os governos não têm capacidade para desenvolver de forma efetiva as ações necessárias.
Entretanto, essa atuação tem encolhido por diminuição de recursos, em especial para aqueles que dependiam da contribuição do país mais rico do globo, cuja orientação política de governo atual é de distanciamento dos mecanismos de cooperação internacional e interrupção de ações de caráter humanitário ou solidário que eram desenvolvidas anteriormente. É bom lembrar que isso não representava benemerência ou filantropia, mas a doutrina que por décadas prevalecia, baseada na consciência de que as ameaças à saúde pública não são contidas por fronteiras internacionais, e que o apoio a ações desenvolvidas em territórios distantes representa proteção global.
Na Europa, o sarampo nunca foi eliminado, com coberturas vacinais historicamente inferiores às necessárias para atingir tal objetivo em muitos países. Em vários anos, a maior parte dos casos identificados no Brasil eram de pessoas provenientes de países europeus ou que tinham se infectado após contato com viajantes. Embora a maioria desses países seja classificada como de renda alta ou média-alta e conte com sistemas de saúde organizados, há parcelas pobres da população com dificuldade de acesso e existem grupos que resistem à vacinação por motivos religiosos, filosóficos ou por desinformação.
Outro aspecto que não deve ser ignorado é a ocorrência de guerras, conflitos armados e deslocamentos populacionais, que têm crescido em várias partes do mundo, o que compromete ações de prevenção, aumenta a circulação de agentes infecciosos e dificulta a produção de informações confiáveis.
Assim, por muitas razões, a eliminação do sarampo, como a de diversas outras doenças para as quais há disponibilidade de vacinas seguras e eficazes, não é visível num horizonte próximo.
Num cenário diferente, no continente americano, o sarampo chegou a ser considerado eliminado em duas diferentes ocasiões, em 2015 e 2024, tendo havido certificação pela Comissão Regional de Monitoramento e Reverificação para a Eliminação do Sarampo, Rubéola e Síndrome da Rubéola Congênita da OPAS. Entretanto, as coberturas vacinais, que caíram no final da década passada em vários países da região, não foram capazes de impedir a importação do vírus e a formação de cadeias de transmissão locais. Enquanto em 2023, quando se caminhava para a eliminação mais recente, foram registrados 73 casos de sarampo nas Américas, houve um salto para quase 50 mil casos, nos oito primeiros meses de 2026.
Essa reintrodução recente trouxe desafios diferentes. As condições de infraestrutura praticamente não mudaram em relação aos momentos anteriormente citados. Entretanto, nos Estados Unidos, país mais populoso e rico da região, prospera um movimento antivacinas que vem ganhando força e se espalha pela vizinhança, alimentado pelo discurso de combate à ciência que foi incorporado por grupos políticos de extrema direita como parte de suas doutrinas. Não se trata, pois, de uma inclusão acidental ou marginal de um assunto exótico, uma vez que o discurso parte de destacadas lideranças governamentais, incluindo o próprio Presidente da República, Donald Trump, e seu Secretário de Saúde e Recursos Humanos (cargo equivalente ao de Ministro da Saúde), Robert Kennedy Jr. Esse último, por muitos anos, alinhou-se a movimentos antivacinas e deu declarações públicas a respeito, que enfatizam, curiosamente, a desconfiança sobre a vacina contra o sarampo. É sempre útil lembrar que ataques a ela passaram a ser comuns depois que um médico britânico publicou um artigo fraudulento na importante revista médica The Lancet, há cerca de trinta anos (posteriormente retratado, ou seja, “despublicado” pela revista) em que procurava atribuir a esse imunizante a causa do autismo de crianças. O médico teve seu registro profissional cancelado no Reino Unido, mudando-se para os Estados Unidos, onde continua liderando atividades contra vacinas.
Mais do que o resgate de episódios da história ou a menção a idiossincrasias de personalidades políticas, fica evidente a posição do governo do país mais populoso, rico e poderoso do mundo sobre vacinação. As consequências domésticas naquele país, alimentadas por atos políticos, de comunicação e regulatórios são o enfraquecimento da saúde pública e o aumento da hesitação vacinal, a antítese do que se espera como ação governamental. Essa narrativa sobre as vicissitudes estadunidenses se justifica por estar lá um grande epicentro de irradiação de iniciativas e ideias que se contrapõem ao conhecimento científico.Entretanto, o Canadá perdeu a certificação, depois de 27 anos sem transmissão. Lá houve protestos (autodenominados Comboio da Liberdade, ou ”Freedom Convoy”) no terceiro ano da pandemia de covid-19 em que milhares de pessoas questionavam medidas de controle da doença, em especial exigências de vacinas.
Também no México, no Peru, na Colômbia, no Chile e no Brasil, desde o anúncio das providências adotadas para conter a epidemia e particularmente depois do início da vacinação, tais protestos aconteceram e houve volumoso trânsito nas redes eletrônicas de mensagens e propagandas que questionavam a segurança, a eficácia e a obrigatoriedade de imunizantes. A polêmica disparada por tais movimentos durante a emergência internacional tornou-se combustível para incendiar a comunicação em saúde pública de forma generalizada, o que, ao lado do enfraquecimento dos serviços de saúde associado à pandemia, abriu as portas para que o sarampo se propagasse com facilidade (além de coqueluche e outras doenças preveníveis).
No Brasil, as conturbações não foram diferentes. Durante os anos de 2020 a 2022, as ideias antivacinas e anticiência tornaram-se discurso oficial, vocalizado pelo então Presidente da República, Jair Bolsonaro, e por vários de seus assessores, inclusive ministros da saúde. Lideranças políticas de extrema direita seguiram essa mesma orientação e empenham-se, ainda hoje, para travestir discussões sobre indicações e obrigatoriedade de vacinas com roupagem de tendências ideológicas. Para esses, a “esquerda” tolhe a liberdade individual ao advogar que vacinas indicadas para diminuir a circulação de agentes infecciosos sejam compulsórias.
Pode parecer paradoxal que nessa situação complexa o Brasil mantenha controle sobre a situação do sarampo. Alguns fatores se associaram para tanto.
Um deles é a força do Programa Nacional de Imunizações (PNI). Iniciado na década de 1970 e plenamente incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS), o maior programa público de imunizações do mundo tem prestígio junto a todas as camadas da população, sendo reconhecido por seu impacto para redução de diversas doenças, pela erradicação da varíola, a eliminação da poliomielite, da rubéola (e da síndrome congênita associada a ela) e do sarampo, como referido anteriormente.
A organização e a resiliência do SUS certamente concorrem para esse resultado. Ele alcança, com grande capilaridade, todo o território nacional e, com a atuação de suas equipes multiprofissionais dentro das unidades básicas de saúde e em campo, leva as ações de saúde para perto das pessoas, interagindo intensamente com elas, dando acesso, entre outras tantas coisas, a vacinas e a informações qualificadas. Mesmo tendo sofrido com a sobrecarga trazida pela covid-19, com a falta de coordenação nacional durante três dolorosos anos e com a enxurrada de informações mentirosas que se espalhavam como fumaça fétida pelas comunidades, o SUS resistiu. A organização descentralizada, com comando compartilhado pelas três esferas de governo, permitiu aos gestores estaduais e municipais manter o sistema funcionando e, na maior parte do país, apoiar os profissionais para que seguissem em suas missões, baseadas em conhecimento científico e no compromisso com as populações sob sua responsabilidade.
Depois de vários anos em que houve queda de coberturas vacinais, a partir de 2023, o Programa Nacional de Imunizações voltou a ser considerado uma prioridade pelo Governo Federal. Com isso, passou a contar com estrutura, recursos, coordenação e respaldo político para desenvolver uma ampla e complexa programação de fortalecimento do sistema, com boa ressonância em estados e municípios. Assim, progressivamente as metas de vacinação vêm sendo alcançadas.
O sarampo e outras doenças transmissíveis causam grande preocupação e sofrimento. Várias delas podem ser controladas ou mesmo eliminadas com a utilização de vacinas já disponíveis, ao lado de medidas de contenção amplamente conhecidas pelos profissionais de saúde, como comunicação adequada, isolamento de casos, uso de máscaras e controle de contatos. Para tanto, é fundamental extrair ensinamentos da experiência recente e, nesse aspecto, o contraste apontado nesse texto evidencia que o trabalho desenvolvido no Brasil pode ser tomado como caso de sucesso para inspirar políticas em outros países. Resta valorizar o SUS, o PNI e frear o negacionismo científico que se espalha pelas Américas.
*Claudio Maierovitch é médico sanitarista e diretor da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Integra a 10ª Turma da carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental (EPPGG) do Governo Federal. Está aposentado e filiado à ANESP.
Este artigo integra a série Um Estado para o Futuro, iniciativa da ANESP que reúne reflexões de EPPGGs sobre temas estratégicos para o debate eleitoral de 2026, a partir da defesa e do fortalecimento dos serviços públicos e da democracia.