Quando a mentira chega antes do serviço público
Por Antônio de P. de L. Brito*
Imagine que, numa manhã qualquer, circula pelos aplicativos de mensagem um áudio com a voz inconfundível de uma autoridade da saúde. Ele avisa que um serviço será suspenso, que um documento passará a ser exigido, que um benefício será cortado para quem não fizer um "cadastro de urgência". O áudio é convincente, o tom é grave, o link parece oficial... porém, nada disso é verdade A voz foi sintetizada, o link leva a uma armadilha e, quando o órgão responsável consegue desmentir, o boato já percorreu milhões de telas e produziu seus efeitos: filas que não deveriam existir, pessoas que deixam de buscar um atendimento a que têm direito, famílias que caem em golpes.
A cena ainda é, em parte, hipotética. Mas cada um de seus elementos já é tecnicamente possível e cada vez mais barato. É a esse cenário que o debate eleitoral, tão concentrado em candidaturas, precisa prestar atenção. Quando se fala em desinformação nas eleições, pensa-se quase sempre em boatos sobre candidatos: montagens, acusações falsas, disputas de narrativa. É um problema real, mas é só uma parte. Há uma dimensão menos visível e talvez mais duradoura: a desinformação sobre políticas públicas, que não mira uma pessoa, e sim o funcionamento do Estado.
Uma política pública não se sustenta só em lei, orçamento e equipe; depende também de compreensão, adesão e confiança. A vacinação pelo SUS só cumpre seu papel se as pessoas acreditam que vale a pena se vacinar. O Cadastro Único e programas como o Bolsa Família só chegam a quem precisa se as regras de acesso são conhecidas e confiáveis. Uma resposta a uma emergência sanitária ou climática só funciona se a população segue, no momento certo, as orientações corretas. Quando a informação falsa circula mais rápido que a verdadeira, o custo aparece na ponta: no posto de saúde, na fila, no balcão de quem presta o serviço e de quem o recebe.
Por isso a desinformação sobre políticas públicas é, antes de tudo, um problema de prestação de serviços, não apenas de comunicação. Do lado do cidadão, leva a decisões erradas sobre saúde, renda, educação e direitos. Do lado do Estado, obriga gestores e servidores a gastar tempo desmentindo boatos em vez de aperfeiçoar o que entregam. E há um efeito de mais longo prazo: a erosão gradual da confiança nas instituições, base sobre a qual qualquer democracia se assenta. Uma sociedade que desconfia por princípio de tudo o que vem do Estado tem menos capacidade de coordenar respostas coletivas e de defender aquilo que funciona.
Essa relação entre informação e democracia, mais do que um detalhe, é elemento essencial e constitutivo desta última. Desde Robert Dahl, sabe-se que uma poliarquia, o arranjo institucional mais próximo que se tem de democracia em larga escala, depende de cidadãos terem acesso a fontes alternativas de informação para formar preferências com autonomia; sem isso, o voto e a livre expressão perdem parte do sentido, porque ninguém escolhe bem aquilo sobre o que foi enganado. Norberto Bobbio foi além ao definir a democracia como o governo do poder público em público, o oposto do arcana imperii, do poder que se exerce na sombra: um governo só é controlável quando seus atos são visíveis a quem ele governa. No Brasil, não à toa, esse princípio virou norma e a Constituição de 1988 elenca a publicidade, ao lado da legalidade, da impessoalidade, da moralidade e da eficiência, entre os princípios da administração pública (art. 37, caput).
Amartya Sen mostrou de maneira contundente a dimensão prática dessa ideia ao relacionar democracia, liberdade de imprensa e capacidade de resposta dos governos diante de crises como a fome. O mecanismo é o mesmo que este texto descreve em escala menor: informação ruim atrasa a resposta certa, e quem paga o preço é sempre quem está na ponta. Quando a desinformação satura o debate, ela não corrompe apenas uma eleição ou uma política específica: corrompe a própria condição de visibilidade sobre a qual o poder democrático se apoia, e sem a qual nenhum controle social ou institucional é possível.
É nesse ponto que a inteligência artificial muda a escala do problema para além da sua intensidade. Ferramentas generativas produzem, em segundos e a custo quase zero, textos, imagens, áudios e vídeos difíceis de distinguir do material autêntico. Mais do que falsificar, elas personalizam: adaptam a mensagem à linguagem e ao medo de cada público, e a distribuem em volume que nenhuma equipe de checagem acompanha. O que antes exigia estrutura, tempo e habilidade agora requer um celular e alguma má intenção. Comunicados falsos com a identidade visual do Gov.br, vozes clonadas de autoridades, sites que imitam páginas oficiais: a fronteira entre o autêntico e o forjado se torna mais tênue justamente onde o cidadão mais precisa de clareza.
O risco não está mais somente no conteúdo falso, mas no que se pode chamar de dúvida generalizada. Quando tudo pode ser forjado, qualquer prova verdadeira também pode ser posta sob suspeita. Um documento oficial autêntico, uma gravação legítima, um comunicado de serviço podem ser descartados com um simples "isso é montagem". Essa dúvida beneficia quem lucra com a confusão e prejudica, sobretudo, quem depende de informação confiável para acessar um direito e dispõe de menos tempo e recursos para verificá-la.
Vale ressaltar que não faz sentido demonizar a IA: seu uso pelo Estado também pode ser parte do antídoto contra a desinformação, tornando o atendimento mais acessível e ágil, do INSS às ouvidorias. Mas um Estado que usa, para combater a desinformação, ferramentas automatizadas que ele próprio não consegue explicar corre o risco de trocar um problema de credibilidade por outro.
Diante desse quadro, algumas direções merecem atenção nos próximos anos, independentemente de quem ocupe os cargos de decisão.
A primeira é tratar a informação pública como parte do desenho da política, e não como algo acessório a ser resolvido depois. Comunicar bem um serviço, com linguagem clara, canais acessíveis e presença onde as pessoas realmente estão, é parte do que faz uma política funcionar. Isso inclui antecipar boatos previsíveis, responder rápido e ouvir a ponta para entender onde a confusão nasce.
A segunda é preparar quem está na linha de frente. Servidores e gestores precisam de orientação, protocolos e apoio institucional (de escolas de governo como a Enap às ouvidorias setoriais) para reconhecer e responder a episódios de desinformação sem improviso e sem transformar cada caso em crise. Boa parte da resposta se decide no cotidiano de quem atende, não em campanhas de comunicação lançadas depois que o estrago está feito.
A terceira é investir em transparência sobre o uso de inteligência artificial, tanto pelo setor público quanto por plataformas e demais agentes. Saber quando um conteúdo foi gerado ou manipulado artificialmente, e entender como sistemas automatizados são empregados, ajuda a preservar a confiança. Isso passa por regras claras – na linha da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e da reinterpretação do artigo 19 do Marco Civil da Internet pelo STF, em 2025 – , por responsabilização de quem produz e distribui conteúdo enganoso em escala e por mecanismos de verificação acessíveis ao cidadão comum. A decisão do STF preencheu parte do vazio, mas não substitui uma lei aprovada em debate público. O tema do PL das Fake News, arquivado em 2024, precisa voltar ao Congresso.
A quarta é fortalecer o ecossistema ao redor do Estado: checagem independente, imprensa profissional, universidades, organizações da sociedade civil e as próprias plataformas digitais, em diálogo com iniciativas que a Justiça Eleitoral já articula em período de eleição. Nenhum órgão isolado enfrenta um fenômeno dessa escala; a resposta é necessariamente compartilhada, e depende de canais de cooperação estabelecidos antes das crises, não improvisados durante elas.
A quinta, e talvez a mais delicada, é manter o debate no campo certo. Enfrentar a desinformação sobre políticas públicas não é decidir o que pode ou não ser dito numa disputa política, nem calar o dissenso legítimo sobre os rumos do país. É proteger a capacidade de as pessoas acessarem informação confiável sobre serviços e direitos que afetam suas vidas. Ignorar essa distinção pode produzir remédio pior que a doença, transformando um instrumento de proteção em instrumento de controle. É por isso que a discussão precisa ser pública, plural e transparente.
As eleições são um momento em que o tema ganha visibilidade, mas o desafio permanece depois delas. Quem assumir as responsabilidades de governo nos próximos anos vai governar num ambiente informacional mais difícil, em que a IA torna a mentira mais barata, mais convincente e mais personalizada. Talvez a pergunta a fazer a quem pede o voto não seja apenas o que pretende fazer em cada política, mas como pretende garantir que essas políticas cheguem, com informação verdadeira, a quem delas precisa.
Preparar o Estado, os servidores e os cidadãos para esse ambiente, mais do que agenda político-eleitoral, é condição para que políticas públicas funcionem, direitos sejam acessados e a democracia continue sendo um espaço em que divergências possam existir sem que se perca uma base comum de fatos.
*Antônio Brito é doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB), membro da carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental (EPPGG) do Governo Federal, atuando como pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) desde 2020, onde vem realizando pesquisas sobre transformação digital do Estado e desinformação.
Este artigo integra a série Um Estado para o Futuro, iniciativa da ANESP que reúne reflexões de EPPGGs sobre temas estratégicos para o debate eleitoral de 2026, a partir da defesa e do fortalecimento dos serviços públicos e da democracia.