Imaginar futuros: EPPGG discute utopia e distopia no Contexto Brasil

Que futuro sabemos imaginar? Essa é a incômoda pergunta que o EPPGG Pedro Assumpção Alves coloca em seu texto publicado no Contexto Brasil. Para ele, temos desaprendido a projetar futuros que proponham saídas para os dilemas do presente – a distopia substituindo a utopia: “A distopia se tornou o exercício corriqueiro de construção de futuros. Uma das razões para esta preponderância parece estar no fato de que a distopia não precisa romper com o presente. Basta intensificá-lo. A vigilância já existe; amplia-se sua escala. A desigualdade já existe; radicalizam-se seus efeitos. A crise climática já começou; aceleram-se suas consequências”.

Baseado na noção de realismo capitalista de Mark Fischer, Alves vê o futuro cada vez mais limitado ao universo do que é – hoje – possível. A imaginação limitada torna certas escolhas a representação de um modelo de modernização inevitável; outras, resistência ao curso da história. Contudo, o autor percebe, na experiência chinesa, a introdução de um incômodo nessa narrativa de futuro único: “Enquanto parte do debate ocidental caminhava para a convergência em torno de determinadas escolhas econômicas, a China combinava mercados, abertura internacional e expansão do setor privado com planejamento de longo prazo, forte presença estatal e orientação estratégica do desenvolvimento”.

O autor frisa não colocar a China como uma utopia nem um modelo a ser reproduzido. Sua importância é outra: reabrir a história e as possibilidades de produção de outros futuros: “Enquanto parte do Ocidente internalizava a ideia de que a margem de escolha diminuía, outro país construía um presente que não cabia inteiramente naquele consenso”.

Sobre a urgência de recuperarmos utopias, Alves ressalta a diferença entre utopia como “destino” e utopia como “exercício”: “A primeira oferece uma resposta definitiva. A segunda rompe a naturalização do presente e recorda que aquilo que existe não esgota aquilo que pode existir”. Para o EPPGG, essa capacidade imaginativa se torna decisiva diante da inteligência artificial, da transição climática e das transformações do mundo do trabalho.

“O problema começa quando o medo se torna a única linguagem disponível para falar do amanhã. Uma sociedade que representa detalhadamente aquilo que teme, mas encontra dificuldade para formular aquilo que deseja, desenvolve uma relação fatalista com o futuro, sem margem para ações alternativas”.

Desse modo, defende, imaginar futuros torna-se “um exercício de sobrevivência”, não porque a imaginação substitua a política – mas porque nenhuma transformação positiva começa sem o sonho de uma alternativa.

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