Viagem de Henry Kissinger ao Brasil em 1962 é tema de artigo de EPPGG na Piauí
Na sua passagem por São Paulo, Henry Kissinger, diplomata estadunidense, faz contato com o parlamento paulista, em 6 de junho de 1962. Acervo público/ALESP
O EPPGG Rogério Farias escreveu à revista Piauí, em coautoria com Luís Cláudio Santos, artigo em que relata a viagem de Henry Kissinger, diplomata estadunidense, ao Brasil em 1962. À época, o Brasil enfrentava instabilidade política: Jânio Quadros havia renunciado no ano anterior e setores da direita e das Forças Armadas haviam tentado impedir a posse de João Goulart, que assumiria apenas depois de aprovada emenda que instituiu o parlamentarismo no País, tolhendo os poderes do presidente.
Neste contexto, e levando em conta o golpe militar que tomaria forma dois anos adiante, a visita de Kissinger – que durou de 30 de maio a 18 de junho e resultou em um relatório “restrito e confidencial” de cerca de 130 páginas, que circulou nos altos escalões de Washington – merece atenção especial, defendem Farias e Santos:
“Tomada como um todo, contudo, a viagem permaneceu inexplorada pelos historiadores. Além do interesse histórico, o relatório é uma curiosa descrição sobre cada passo que Kissinger deu no Brasil, com uma avaliação muitas vezes impiedosa de seus interlocutores. Ele reuniu-se aqui com mais de oitenta pessoas da nata do mundo político, militar, intelectual, financeiro e jornalístico, como Carlos Lacerda, Celso Furtado, Júlio de Mesquita Filho, Samuel Wainer, Walther Moreira Salles, Anísio Teixeira e Juracy Magalhães. Também falou com representantes da União Nacional dos Estudantes (UNE) e com sindicalistas”.
Para os autores, o tom de desânimo e estupefação que permeia o relato de Kissinger soa, hoje, como um prelúdio de dois desprezos: “Sua indiferença futura com relação aos latino-americanos e sua falta de compromisso com os direitos humanos e a democracia ao redor do mundo”.
No contexto da Guerra Fria, a viagem tinha como objetivo entender e apoiar movimentos de centro e de direita no Brasil; contudo, Kissinger faz pouco caso das lideranças que encontra, percebendo a esquerda como mais organizada e propositiva. “Nesse contexto, se esgotaria rapidamente a paciência dos Estados Unidos com a espera por um centro ou uma direita no Brasil que fosse viável politicamente e confiável aos olhos dos americanos”, escrevem Farias e Santos. Após o retorno de Kissinger aos EUA, já no dia 30 de julho de 1962, o embaixador dos EUA no Brasil, Lincoln Gordon, se encontrou com John Kennedy na Casa Branca. O presidente americano decidiu, então, “fortalecer a espinha dos militares” brasileiros, instruindo que se indicasse a eles – discretamente – que Washington não se oporia a uma intervenção contra João Goulart.
Gordon também teve aprovado um repasse de 5 milhões de dólares para financiar candidaturas conservadoras nas eleições estaduais, uma ingerência direta na política interna brasileira, afirmam os autores. “Essa reunião no Salão Oval pode ser vista como o momento em que os Estados Unidos perderam os escrúpulos de apoiar os setores golpistas no Brasil”. Farias e Santos concluem: “Não há evidência concreta de que o relato de Kissinger tenha contribuído diretamente para a mudança de política, mas essa é uma hipótese que não pode ser descartada, tanto mais se considerada a proximidade das datas”.