No Outras Palavras, EPPGG critica monopólio das Big Techs e dificuldade de regulação
“Todo século produz seus monopólios. O século XIX teve a Standard Oil. O XX teve a Philip Morris, a Pfizer e a AT&T. O que diferencia o monopólio do século XXI não é o tamanho nem a brutalidade na forma de atuar – ambos já foram vistos antes. A distinção está na natureza do que ele controla”. Assim começa o artigo do EPPGG James Görgen, publicado no Outras Palavras. Sua crítica é direcionada ao poderio das big techs estadunidenses (Google, Meta, Amazon, Apple, Microsoft) que, pela primeira vez na história econômica, detêm simultaneamente a infraestrutura material sobre a qual a sociedade opera e os fluxos de informação e cognição que circulam por ela.
De acordo com Görgen, as chamadas big techs fizeram desses dois domínios uma máquina única, onde cada camada alimenta e fortalece a outra em tempo real: “O resultado é uma forma de poder que os instrumentos regulatórios disponíveis simplesmente não foram desenhados para conter – e que os próprios valores democráticos tornam paradoxalmente difícil de combater”.
A hipótese central do texto, portanto, é que o que distingue as big techs dos monopólios históricos não é apenas a escala, mas a existência de um mecanismo de retroalimentação entre as camadas que controlam. Cada dado extraído do comportamento dos usuários fortalece a infraestrutura tecnológica, que atrai mais usuários, que geram mais dados. Essa “flywheel” cria uma vantagem que se compõe de forma exponencial – algo que monopólios de recurso fixo, como petróleo, patentes de medicamentos ou espectro eletromagnético jamais conseguiram replicar. “E porque esse loop atravessa simultaneamente camadas econômicas, epistêmicas e políticas, ele escapa das categorias regulatórias desenhadas para mercados de produto único. E tem na liberdade de expressão sua principal mercadoria”.
Não por acaso, argumentará o EPPGG, esses conglomerados são, hoje, o principal ativo de projeção de poder dos EUA no mundo. “Com a intuição que lhe é peculiar, Donald Trump tornou a defesa das big techs dos Estados Unidos um eixo central de sua agenda – nas tarifas, nos acordos comerciais, nas pressões sobre aliados europeus que tentaram regulá-las, na hostilidade declarada ao Digital Markets Act e ao Regulamento de Proteção de Dados europeu. O mesmo se mostrou no ataque tarifário ao Brasil. Isso não é gratuito nem ideologicamente óbvio. Trump não é, por temperamento ou convicção, um defensor do livre mercado tecnológico. É um nacionalista econômico. E é precisamente essa chave que explica o movimento”. Desse modo, diz Görgen, defender a liberdade de operação dessas companhias não é proteger empresas de modo geral, dirá Görgen: é proteger o predomínio estadunidense sobre as demais nações.