EPPGG debate em artigo o projeto da China para a IA
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O EPPGG James Görgen publicou, nesta terça-feira (20), no site Outras Palavras, o artigo “IA: A China tem outro projeto”, em que pontua que o país conduz uma estratégia deliberada e coordenada para se tornar líder global em inteligência artificial até 2030, articulando autonomia tecnológica, transformação econômica, reorganização social e projeção geopolítica.
Görgen analisa que, diferentemente do modelo ocidental, centrado em grandes plataformas privadas e na busca por monopólios, o projeto chinês aposta em comando público, forte política industrial, integração massiva da IA em todos os setores da sociedade, incentivo a modelos de código aberto e controle rigoroso dos riscos.
Desde o lançamento do New Generation Artificial Intelligence Development Plan, em 2017, o país estabeleceu metas claras e cronológicas, sustentadas por investimentos públicos e privados de grande escala e por uma rara coordenação entre Estado, empresas e sistema científico. Gigantes como Alibaba, Tencent, ByteDance e Huawei alinham suas estratégias aos objetivos nacionais, enquanto a IA passa a ser incorporada como fator central de produção, ao lado de capital e trabalho.
A estratégia chinesa combina autossuficiência tecnológica, desenvolvimento orientado por aplicações práticas e governança estatal estrita. Em vez de priorizar pesquisas abstratas como a inteligência artificial geral, o foco recai sobre usos imediatos da IA na indústria, saúde, educação, logística, vigilância e defesa, buscando ganhos rápidos de eficiência e competitividade. Ao mesmo tempo, o Estado mantém controle preventivo sobre riscos, tratando a IA como questão de segurança nacional.
No campo da propriedade intelectual, o artigo desmonta a narrativa ocidental de que o avanço chinês decorre da ausência de proteção a patentes. O que existe é uma aplicação seletiva e estratégica da propriedade intelectual, integrada a uma política industrial explícita, como já ocorreu nos setores de veículos elétricos e energia solar.
A dimensão militar ocupa lugar sensível na estratégia. A IA é integrada à lógica de fusão civil-militar, com aplicações em sistemas autônomos, comando e controle, guerra eletrônica e logística.
Por fim, o artigo destaca a busca chinesa por autonomia tecnológica plena, incluindo semicondutores e equipamentos críticos, contornando sanções por meio de inovação, uso intensivo de talentos e reorganização da cadeia produtiva. No plano internacional, a China se apresenta como parceira do Sul Global e defensora de uma governança multilateral da IA.
O autor conclui que a vantagem chinesa não reside apenas na tecnologia, mas na capacidade de formular e executar estratégias de longo prazo. Para países como o Brasil, o artigo sugere que a questão central não é copiar o modelo chinês, mas reconhecer que, sem política industrial, coordenação estatal e escala, não há soberania tecnológica possível.