“Gastos primários não têm sido principais responsáveis pelo crescimento da dívida”, afirma EPPGG na Carta Capital
Em artigo publicado na Carta Capital, o EPPGG Emilio Chernavsky discute a questão da dívida pública brasileira, que tem crescido nos últimos anos e, no caso da dívida bruta, passou de 71,7% do PIB no fim de 2022 para 81,9% em junho último. De acordo com Chernavsky, esse percentual se situa pouco acima da média registrada nas economias emergentes e em desenvolvimento (74% no fim de 2025), mas segue muito abaixo da média nas economias desenvolvidas (108%). “Além disso, a dívida brasileira possui duas características especialmente benignas: mais de 96% de seu total é denominado em reais, emitido pelo próprio governo, e menos de 10% é detido por investidores externos, o que tende a facilitar o seu financiamento”.
Na análise do EPPGG, nada disso significa que o crescimento acelerado deva ser ignorado. Ao contrário, medidas devem ser tomadas para contê-lo – mas, para elaborá-las, é preciso partir de um diagnóstico correto da situação, e “esse não é o caso daquele apresentado pelos analistas consultados com maior frequência pelos meios de comunicação, que atribui o crescimento da dívida a um suposto descontrole dos gastos do governo, que, simplesmente, não existe”.
Não surpreende, portanto, que – ao contrário do que é afirmado pela narrativa dominante – o déficit primário, alimentado pelos gastos do governo, não seja o principal responsável pelo aumento da dívida pública. “Esse papel é, inquestionavelmente, ocupado pelo pagamento de juros, que respondeu por quase 90% do incremento acumulado da dívida desde 2023 e que, em 2025, chegou a 7,91% do PIB, 18,4 vezes mais que o déficit primário então registrado”, afirma Chernavsky.
Desse modo, não sendo possível atribuir de forma direta o crescimento da dívida pública ao excesso de gastos primários, o diagnóstico dominante procura estabelecer essa relação de forma indireta. Para isso, atribui o nível extraordinariamente elevado da taxa de juros que remunera os títulos da dívida pública, que alimenta seu crescimento, à elevação da percepção de risco de inadimplência provocada pelo aumento dos gastos. Ou seja, os juros aumentariam porque, para financiar uma dívida cada vez mais arriscada, os investidores exigiriam taxas de juro também cada vez mais altas.
“Essa explicação, contudo, não encontra respaldo nos dados recentes. Ao contrário do que ela pressupõe, o risco associado à dívida pública brasileira, em vez de aumentar, tem caído. Um dos indicadores mais utilizados para medi-lo, o Credit Default Swap, encontra-se hoje em seu menor nível desde a pandemia. Entre dezembro de 2024 e meados de 2026, o risco assim medido diminuiu em quase 50%”.