E quando já não puderem culpar os servidores? Sobre Argentina, Brasil e o abismo
Por Elizabeth Hernandes*
Nos últimos dias, mais uma notícia grave chegou da Argentina: o governo de Javier Milei publicou um plano para demissão de mais 21 mil servidores. Não se trata de um episódio isolado: desde o início do governo, cerca de 77 mil postos de trabalho no setor público já foram eliminados. A justificativa é uma velha conhecida: reduzir gastos, tornar o Estado mais “eficiente” e abrir espaço para o setor privado. É verdade que Milei tem conseguido levar adiante suas reformas ultraliberais – o novo plano de demissões é exemplo disso. O que nos obriga a perguntar: a economia por lá está, enfim, melhor? Eram mesmo os servidores os culpados pela crise argentina?
A resposta é especialmente importante no cenário eleitoral brasileiro, quando são discutidos - sem o devido aprofundamento - grandes cortes sociais. O desmonte estatal promovido por Milei não produziu uma economia pujante. Longe disso, aliás: em agosto, a atividade econômica argentina recuou 1,74% em relação ao mesmo mês de 2025, depois de já ter caído 2,8% em julho. Há risco de recessão e especialistas ouvidos pela Agência Brasil relacionam a fraqueza da indústria e do comércio às políticas de corte de gastos adotadas pelo governo.
Um levantamento do Centro de Economia Política Argentina (Cepa) mostrou que 31.342 empresas fecharam desde a chegada de Milei ao poder – aproximadamente 6% do total (e os dados vão até junho deste ano, ou seja: o número já deve ser maior). As pequenas e médias empresas estão entre as mais atingidas. Comércio e indústria enfrentam dificuldades com a queda do consumo, a perda de poder de compra, o aumento de tarifas e a abertura às importações. Em outubro, o risco-país argentino disparou 35% em apenas um mês, atingindo 710 pontos (o maior nível em um ano), enquanto investidores vendiam títulos e aumentavam as dúvidas sobre a capacidade do país de financiar seus compromissos de 2027.
Antes de tudo, devemos prestar solidariedade ao povo argentino, que enfrenta as decisões ideológicas e radicais de Milei. Devemos prestar, também, atenção. O exemplo dos nossos vizinhos mostra quem paga a conta do ajuste fiscal: o desemprego atingiu o maior nível desde 2021. Quase metade da população economicamente ativa trabalha na informalidade, sem vínculo formal de emprego. A proporção de argentinos abaixo da linha da pobreza passou de 28,2% no segundo semestre de 2025 para 32,3% no primeiro semestre deste ano. Por ora, os servidores seguem como bode expiatório. Mas os trágicos resultados socioeconômicos não permitirão que esse discurso se sustente por muito mais tempo. E aí, a quem culparão?
Aos eleitores brasileiros, um alerta. Há uma diferença abissal entre melhorar processos e desmontar a capacidade do Estado de prestar serviços, fiscalizar, regular e executar políticas públicas. Há, entre um lado e outro, um abismo.
Ou melhor: há um lado e há o abismo.
*Elizabeth Hernandes é doutora em Epidemiologia, atua como consultora da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e integra a diretoria da ANESP como vice-presidenta.