Mulheres, insônia e os programas presidenciais em 2026

Por Elizabeth Hernandes*

Conheço uma moça que presta serviços de limpeza em domicílio e que tem tido insônia desde o dia em que presenciou o anúncio de uma tragédia: viu uma mulher correndo, junto a uma criança, pouco antes de ser morta. Sem conseguir fazer nada para evitar a morte, sente-se culpada até hoje.

A insônia dela não é uma raridade entre as mulheres. Estudos epidemiológicos mostram que as mulheres são mais propensas a esse distúrbio. Por que será que as mulheres não dormem bem? Parece que, de alguma forma, todas estão cientes dos dados publicados pelo “Retrato dos Feminicídios no Brasil”, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), um verdadeiro relato de guerra: 1.568 pessoas mortas, em 2025, pelo fato de serem mulheres. A maioria (62,6%) era negra e jovem, com até 49 anos de idade. Mais de 60% foram assassinadas nos próprios domicílios, por homens que são ou foram seus “companheiros”. Metade foi vítima de arma branca e um quarto (25,2%) de arma de fogo. 

Estudos qualitativos corroboram os quantitativos. Em artigo de 2025, Biroli e Tatagiba tratam do que denominam “duplo desafio colocado pelas promessas não cumpridas das democracias liberais e pelo avanço de alternativas liberais e autoritárias” na perspectiva de lideranças feministas e antirracistas, entrevistadas para a pesquisa. As autoras abrem o trabalho ressaltando a crise da democracia, iniciada na última década do século passado e caracterizada por fatores como queda de confiança nas instituições e, por conseguinte, no próprio regime democrático. Tais fatores implicam em diminuição da participação direta, mostrado pelo não comparecimento às urnas, baixo nível de adesão a valores democráticos e perda de força dos partidos. As pesquisadoras também destacam o fortalecimento de partidos políticos e movimentos sociais de extrema-direita, em âmbito global, a partir de 2010. Ressaltam o crescimento de uma nova direita, crescentemente radicalizada, na América Latina: “Seu apelo está relacionado a problemas de vulto, como as desigualdades persistentes, o esgotamento de um período de crescimento econômico (Benza; Kessler, 2021) e os efeitos do crime organizado e da violência na vida de amplos setores da população (Luna, 2023). Em outras palavras, as falhas das democracias compõem as oportunidades políticas da extrema direita na região.” (Tatagiba e Biroli, 2025, p. 1).

Uma retrospectiva histórica superficial mostra que a situação das mulheres não costuma ser segura ou confortável, em nenhuma época ou lugar.

Embora haja registro de mulheres poderosas em determinados contextos políticos, prevalecem estatísticas sobre todos os tipos de violência, inclusive a violência política de gênero. Atualmente, qualquer pessoa que tem um celular já se deparou com vídeos com cenas que mostram a disputa política deixando de ser parlamentar e se tornando uma tentativa de intimidação de uma mulher. Ou ainda fatos mais ultrajantes e graves, como um assédio sexual incontestável feito por um deputado contra uma deputada, em plena sessão, na Assembleia Legislativa do estado de São Paulo. 

O ódio contra as mulheres, assim como a pornografia, é um ativo rentável nessa nova e perversa economia e seu consumo é direcionado aos jovens.

Em “Narrative Matters: Adolescence in The Manosphere – A perfect storm?” (2025), Jane Gilmour aborda a relação entre a chamada “machosfera” e adolescentes do sexo masculino, tendo por mote o seriado “Adolescence” (Netflix). O artigo destaca que as origens do movimento da “machosfera” têm mais de 50 anos e alguns autores o entendem como uma reação aos movimentos de libertação feminina, embora outros argumentam que a misoginia sempre existiu. Mas há um fato novo: temas contemporâneos em outras esferas compartilham valores com a “machosfera”.

Existem paralelos entre algumas políticas populistas e os princípios orientadores da masculinidade violenta: ambos criam um bode expiatório (a mulher) que deverá ser diminuído em poder ou número, para restaurar o “equilíbrio natural”. Dessa forma, política radical à direita e misoginia são companheiras inseparáveis no mundo cibernético.

A autora cita o trabalho de Mamie, Ribeiro e West (2021), que analisou 300 milhões de postagens na internet. Os autores concluíram que as "sugestões automáticas" conduziam aqueles que interagiam com a "machosfera" a conteúdos de extrema direita. O trabalho de Gilmour chama a atenção para o público jovem, que consome tais conteúdos. Os dados mostram que 80% dos meninos entre 16 e 17 anos já viram conteúdo da "machosfera" (pesquisa da Hope Not Hate, 2023). Esses jovens começam vendo uma postagem  relacionada à saúde e bem estar como a prática de exercícios físicos ou tipos de nutrição e acabam interagindo com canais de extrema direita que divulgam conteúdo misógino.

Diante do que ora se chama guerra e ora epidemia, é importante observar o que os programas de governo dos candidatos à Presidência da República trazem acerca do assunto violência contra mulheres. Aqui apresento um breve apanhado, baseado em dados divulgados na imprensa ou no endereço eletrônico do TSE. Não se faz juízo de valor em relação a nomes ou partidos, apenas se analisa o conteúdo das propostas contidas nos programas de governo.

Dentre os quatorze candidatos e respectivos programas, dois não tocam no assunto. Um desses é o programa de Wilson Grassi, do Democrata, em que não aparece a palavra “mulher”, seja no singular ou plural, nem mesmo associada a uma generalidade qualquer. Há uma única referência à violência doméstica, na p. 23: “A literatura internacional sobre a chamada Teoria do Elo aponta associação entre praticar violência contra animais e praticar depois violência contra pessoas, com destaque para violência doméstica.” 

Quando violência doméstica e maus tratos a animais estão no mesmo parágrafo de um programa presidencial é impossível não relembrar a famosa frase atribuída a ativistas como Angela Davis e Marie Shear, destacada numa publicação do Coletivo Geledès: “O feminismo é a ideia radical de que as mulheres são seres humanos.”

Há um programa – do candidato Augusto Cury, do Avante – que propõe o uso de drones na proteção às mulheres, embora não deixe claro de que forma eles poderão ajudar. Outros prometem o uso de tecnologias baseadas em Inteligência Artificial (a mais nova moda e panaceia) e ainda outros que apresentam medidas já aprovadas, como a criminalização da misoginia.

Dentre os programas que trazem propostas concatenadas com a realidade das estatísticas, destacam-se ações como a criação de políticas públicas que se utilizem de diversos tipos de integração de recursos; criação de infraestrutura de acolhimento; integração entre órgãos de segurança e atuação em rede.

Também há programas que apresentam a proposta de sempre, que costuma ser apresentada em face de todos os tipos de violência e cujos resultados jamais foram comprovados: o endurecimento de penas e o aumento da população carcerária.

Não foram identificadas propostas inovadoras ou que busquem responder a uma pergunta fundamental: por que as mulheres estão sendo perseguidas até a morte, ao ponto de haver quatro feminicídios (registrados) por dia? E aqui vale lembrar que, embora os assassinatos de mulheres trans deva estar nesse conjunto, há problemas quanto aos seus registros. 

Há um sentimento generalizado de que o ódio às mulheres nunca esteve tão claro e tão disseminado e há estudos que sugerem correlações e apresentam sugestões como o de Jane Gilmour. Na conclusão do artigo, a autora cita algumas estratégias consideradas eficazes para lidar com esse segmento da população, como a abordagem de desenvolvimento que tire proveito das características específicas do cérebro adolescente. 

Entretanto, as intervenções não podem operar em um vácuo social e ela dá, como exemplo, o protagonista da série “Adolescence”, que manteve muitas relações complicadas com a própria família, com amigos e com os adultos ao seu redor. Ou seja, a pesquisadora norte-americana traz comprovação acadêmica para um conhecido provérbio africano: “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança". As crianças do sexo masculino  precisam ser educadas para não matarem mães, irmãs, tias, primas, namoradas, colegas de escola.

O trabalho de Tatagiba e Biroli (2025) mostra que as entrevistadas expressam o entendimento de que, desde os anos 2000, um conjunto de atores se organizou para, estrategicamente, conter mudanças e garantir o controle sobre o Estado, numa perspectiva antifeminista. A percepção das entrevistadas é que a força social e política dos setores conservadores e de extrema direita, que têm ampliado seu acesso ao Estado, é um fator conjuntural que aumentou os riscos para os direitos das mulheres e as ameaças às suas vidas.

Ao mesmo tempo em que são alvo de armas brancas e armas de fogo, as mulheres também são o “público-alvo” dos políticos que, recentemente, não puderam mais ignorar que elas podem decidir os rumos de uma eleição. Todos querem os votos das mulheres. Poucos apresentam propostas que, efetivamente, as protejam da violência.

Reportagem da BBC News Brasil identificou a circulação, nas redes sociais, de discursos que questionam o sufrágio feminino e responsabilizam o voto das mulheres por problemas sociais e dificuldades enfrentadas pelos homens. A investigação, realizada ao longo de três meses, apontou a existência de um ecossistema digital que reúne influenciadores e outros produtores de conteúdo, incluindo, infelizmente, até mulheres que defendem ou manifestam disposição de renunciar ao direito de votar. “Nas vozes desses influencers, o voto feminino vem sendo relacionado a mudanças que eles definem como prejudiciais aos homens. Muitos deles fazem parte da chamada machosfera e da cultura redpill, comunidades de valorização masculina que enaltecem um homem de força, dominante na relação, e que precisa estar em constante vigilância sobre as intenções de uma mulher”, de acordo com a BBC. 

Tatagiba e Biroli descrevem, ainda, minuciosas cenas aterrorizantes vividas por mulheres ativistas durante o governo Bolsonaro, mas há um tom de desesperança em relação ao governo Lula: “(...) O conhecimento sobre o governo e seus efeitos, mas também as ameaças que se apresentaram com o crescimento da extrema-direita, fizeram que uma avaliação estratégica substituísse o que poderíamos caracterizar como um certo encantamento pela abertura relativa do Estado, uma novidade em relação à política anterior aos governos petistas. Essa avaliação aparece, sobretudo, nas elaborações de mulheres negras e daquelas que participam de organizações e atuam por agendas que entendem ter tido menos espaço que outras do próprio campo feminista.” Dentre outros pontos, as autoras concluem que “o aprendizado do ciclo democrático recente produziu análises que combinam um diagnóstico firme das desigualdades estruturais e do caráter violento do Estado em sua relação com grupos historicamente marginalizados a um projeto que mantém no horizonte a importância de disputar o Estado.”

Voltemos à insônia da trabalhadora diarista que, no momento, está às voltas com uma vizinha que grita quando está apanhando mas que “esconde” o parceiro quando os policiais batem à sua porta, na mesma rua em que morreu outra mulher, recentemente. É claro que essa futura vítima de feminicídio não está isenta do julgamento dos vizinhos que estão começando a dizer que “ela gosta”. E aqui, se aprofundarmos, teremos de envolver a rede de saúde mental, dado que “gostar de apanhar” não existe.  E não, não há nada sobre a saúde mental das mulheres nos programas presidenciais do pleito atual.

Eu gostaria de concluir esse artigo com sugestões inovadoras e otimistas, mas tudo o que consigo pensar é no tamanho do problema e nas questões estruturais. A título de resumo, talvez seja importante lembrar que a aldeia precisa, também, cuidar de todas as mulheres e que esse cuidado precisa ser estimulado e se refletir nas propostas dos candidatos à Presidência da República. Uma pessoa pessimista dirá que a misoginia é milenar e não avançamos quase nada ao longo dos séculos e dos regimes políticos. Já uma pessoa otimista dirá que, se os vizinhos chamam a polícia quando escutam uma mulher gritando e se a polícia vem, já é um começo.

Ainda estamos longe de barrar a matança das mulheres, mas há esperança. Não desesperançar de optar pela democracia é um bom começo.


*Elizabeth Hernandes é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental (EPPGG) da 5ª Turma, atualmente aposentada, e integra a diretoria da ANESP como vice-presidenta. Graduada em Educação Física, mestre em Saúde Coletiva, doutora em Epidemiologia, atua como consultora da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS).

Este artigo integra a série Um Estado para o Futuro, iniciativa da ANESP que reúne reflexões de EPPGGs sobre temas estratégicos para o debate eleitoral de 2026, a partir da defesa e do fortalecimento dos serviços públicos e da democracia.


ÚLTIMAS NOTÍCIAS