Recorde de vagas no serviço público

De cada três profissionais, dois conseguiram uma colocação na administração direta ou indireta dos governos federal e distrital. Entre julho de 2008 e de 2009, foram 20 mil contratações

Após cinco anos contribuindo com parcelas pequenas ou nulas na criação de empregos no Distrito Federal, a administração pública voltou a contratar. No último ano, 30 mil pessoas conseguiram um emprego na capital do país. Dois a cada três profissionais estão na administração pública direta ou indireta dos governos federal e do DF. Ao todo, 20 mil trabalhadores foram convocados por concursos públicos ou empregados como terceirizados ou comissionados, entre julho de 2008 e julho deste ano, de acordo com a última Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) divulgada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), que serviu de base para o levantamento feito pelo Correio.

No mesmo período do ano passado — julho de 2007 a julho de 2008 —, o saldo foi nulo, ou seja, o número de contratados foi igual ao de demitidos do setor público. No intervalo entre julho de 2006 e igual mês de 2007, os governos demitiram mais do que contrataram e o saldo fechou negativo em -1,6 mil postos de trabalho (veja quadro). Os 20 mil contratados representam o maior volume da década. Proporcionalmente em relação ao total de vagas criadas no mercado local, só não supera os volumes registrados entre julho de 2002 e julho de 2003. Naquele período, a administração direta e a indireta empregaram 9,3 mil pessoas, mas o saldo do mercado de trabalho ficou em 8,5 mil, ou seja, a iniciativa privada demitiu 800 brasilienses.

Foi no embalo das últimas convocações que a servidora Marianna Nunes Rufino foi chamada. Em julho último, ela tomou posse no cargo de agente administrativa do Ministério da Saúde, concurso para o qual se preparou por um ano. Já empregada, ela continua estudando. Quer passar em outro concurso, agora de nível superior. “Quero passar para analista do Ministério Público ou algum específico para psicólogo”, diz. Enquanto se preparava, Marianna contou com a ajuda dos pais, que a bancaram suas despesas para que pudesse se dedicar exclusivamente aos livros. “Acho que foi mais fácil passar em um concurso porque pude ficar só estudando. Nesse período, contei com o apoio financeiro e psicológico dos meus pais”, afirma.

Composição 
A administração direta é composta pelos órgãos que estão ligados diretamente ao poder central: ministérios e secretarias. A indireta é composta por entidades que têm personalidade jurídica, como as autarquias, fundações, empresas e sociedades de economia mista.

Levantamento 
A Pesquisa de Emprego e Desemprego é realizada todos os meses em 19 regiões administrativas do Distrito Federal. O levantamento é feito pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) em cerca de 2,9 mil domicílios e coleta informações sobre todos os moradores com 10 anos ou mais de idade.

Sinais de dependência

Na opinião de economistas especializados em mercado de trabalho, o elevado número de contratações demonstra que a economia brasiliense ainda continua dependente do setor público. A administração pública é responsável por 55% do Produto Interno Bruto (PIB) do DF. Mas essa dependência é arriscada. “O setor público é o elemento indutor da economia de Brasília, mas não é suficiente. Por isso, o desemprego em Brasília é tão elevado”, afirma o economista Júlio Miragaya, integrante do Conselho Federal de Economia.

O grande interesse dos profissionais de Brasília em passar em um concurso é um dos responsáveis pelo fraco desempenho da economia privada, na avaliação do professor da Universidade Católica de Brasília Adolfo Sachsid. “Se os governos parassem de contratar, estas pessoas que estão estudando poderiam gastar seu tempo e dinheiro abrindo um negócio. A mão de obra qualificada de Brasília se prepara para passar em um concurso, e não para gerar riqueza para a sociedade. E com a perspectiva de muito concurso daqui para frente essa tendência só tende a aumentar.”

A oferta de emprego público deve continuar. Pelo menos em âmbito nacional. A proposta de Orçamento da União para 2010 prevê a contratação de 56.861 trabalhadores para cargos efetivos, por meio de concurso, comissionados e funções de confiança. Mas nem todos vão trabalhar no DF. As vagas são para todo o país. No GDF, as admissões deverão ser mais tímidas. Segundo o secretário de Planejamento, Ricardo Penna, na próxima semana, o governo apresentará a proposta de orçamento à Câmara Legislativa, e será mais contido na previsão de gastos com contratações. Os repasses federais para o DF diminuíram neste ano e houve uma queda nas receitas orçamentárias, com a redução da arrecadação local, o que deve levar a um enxugamento, como vem anunciando o governo.

Fonte
Correio Braziliense – 10 de setembro de 2009